terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Dois Mil e Quatorze

Dois mil e quatorze.

                “Cinco, quatro, três, dois, um... feliz ano novo!!!” Foi assim que meu ano começou. A mesma coisa todos os anos. Uma contagem regressiva para mais um ano, mais uma data no calendário. Eu achava tudo aquilo uma babaquice. Vi os fogos com olhos vazios, enquanto admirava o silêncio da outrora barulhenta turba. Vi a quantidade de olhos marejados, admirando a passagem do ano. Quanta idiotice.
                Recebi algumas mensagens de congratulações, até parece que fiz algo por esse ano estúpido. Tentaram me ligar algumas vezes, recusei todas. Não mandei mensagens, não liguei para amigos, humpf, amigos... não desejei feliz ano novo para parentes e assim, caminhei de volta para casa. Nem sei porque fui ver aquela inutilidade pública, meu dinheiro sendo, literalmente, explodido. Roupa brancas desejando paz, pulando 7 ondas para Iemanjá e rezando 23 Ave-Maria enquanto enche a boca de romãs. País hipócrita.
                Parei em frente a uma casa, vi pessoas rindo, se divertindo, como se fosse o último dia de suas vidas. Todos de branco, estourando espumante e bebendo cerveja, bêbados idiotas. Continuei minha solitária caminhada, vi outra casa, os mesmos sorrisos, pessoas diferentes. Mais uma casa, todos sorrindo, o que há de errado comigo? Por que não posso sorrir como eles?

                Cinco.

                Vi mais uma casa, as portas abertas e um rosto familiar.

                Quatro.

                Me acolheram, me abraçaram, me desejaram feliz ano novo. Então a vi. Cabelos vermelhos, sorriso branco e sem maquiagens, apenas um batom bem vermelho, vestido branco, e os olhos negros. Veio em minha direção, e me abraçou. Me desejou um “feliz ano novo” sincero e me beijou a bochecha.

                Três.

                Seu perfume doce encheu minhas narinas, preenchendo algum vazio que existia em mim. Senti seus braços me apertarem e senti o desejo de retribuir, a abracei e, pela primeira vez desejei um “feliz ano novo” sinceramente.  Ela se afastou de mim, e olhou em meus olhos.
                - Você é o Fábio, não é? Amigo do João?
                - Sou eu mesmo. – Sorri.
                - Patrícia, prima dele. Bom te ver de novo.
                Patrícia... a conheci com 3 anos de idade, tudo bem, eu tinha 5, mas ainda assim era jovem. Estudei com João desde o primário e a priminha dele me adorava, ainda mais na minha fase de aprendiz de mágico, aos 15. Quando a vi, não acreditei quanto o tempo tinha passado, ela se mudara para Minas Gerais com 14 anos, e eu continuava no Rio, não a vi crescer.
                - Patrícia? Uau, você... cresceu... eu acho...
                - hahaha, algum dia isso tinha que acontecer, não é mesmo?
                - heh, acho que eu fui o único que não cresceu.
                - Pois é, você não mudou nada.... Continua com seus truques de mágica? – Sorriu, lembrando dos tempos que eu a entretinha com argolas de plástico e cartas com bolas vermelhas pré-determinadas.
                - Não, parei a um tempo.
                Não consegui esconder a insatisfação de ter abandonado uma das minhas paixões, o ilusionismo e a magia que era treinar o suficiente para fazer um baralho de cartas ser embaralhado e ainda assim não ser.
                - Ah, que pena, eu andei treinando uns truques desde que você me ensinou alguns...
                Ela sorriu pra mim e pegou em minha mão.
                - Vem, vou te mostrar.

                Dois.

                Ela me levou até o jardim, onde uma grande piscina se encontrava vazia, enquanto todos estavam admirados com os fogos e os espumantes na beira da rua.
                - Eu consigo andar sobre a água. – disse – e aposto que também consegue se vier comigo.
                Pela primeira vez em muito tempo eu estava com um sentimento que me lembrava os truques que vi quando criança, uma mistura de espanto, surpresa e admiração, algo que foi embora quando aprendi a fazer os truques.
                - Duvido! – disse, com um sorriso nos lábios.
                - Então vem comigo.
                Ela, sem soltar da minha mão, correu em direção à piscina, e eu não tive escolha a não ser ir atrás. Obviamente não andamos sobre as águas, mas caímos na piscina, com a água quente depois de ficar o dia inteiro sob o sol.
                - Culpa sua! – ela me disse. – Você não acreditou o suficiente!
                Reparei em seus cabelos molhados, o batom ainda perfeito sob os lábios e as gotículas de água ressaltavam as maçãs da face dela como se por magia.
                - Acreditei sim! Acreditei como nunca tinha acreditado antes.
                Meu tom irônico foi percebido, como a intenção sugeria, e ela me jogou água no rosto, como uma criança faria, sorrindo, como uma criança faria e eu fiz o mesmo, como uma criança faria.
                Fui me aproximando, peguei em sua mão.
- Acho que abandonei a mágica por um motivo – disse – não tinha mais quem me fizesse sentir como você me fazia quando éramos crianças.
Reparei que seu rosto ficou da cor de seus cabelos.
- E eu acho que sei por que gosto tanto de mágica – ela disse – para poder te fazer lembrar como você se sentia.
Ela se aproximou de mim e me abraçou, passou a mão em meu rosto como se enxugasse a água que escorria de meus cabelos, vi seus olhos me olhando, com a admiração de alguém que assiste a um espetáculo de ilusionismo, e, acho, eu tinha a mesma admiração nos olhos.
- Eu tenho ainda um último truque, mas você tem que realmente acreditar.
- Tudo bem. Eu acredito.
- Acredita mesmo?
- Claro.
- Então fecha os olhos.
Fechei meus olhos, esperando um jato d’água no rosto.

Um.

Ela se aproximou, segurou minhas mãos e me beijou, senti sua respiração quente batendo na minha pele molhada, seu perfume era o mesmo, a água não tinha apagado o aroma doce que exalava da pele dela, o gosto de espumante barato ainda estava na boca dela, misturada com uma bala de menta, ela me abraçou ainda mais forte, como se não quisesse me deixar escapar daquela armadilha que ela havia preparado. E eu não queria escapar, poderia passar o ano inteiro naquela maravilhosa armadilha. Ela se afastou, me olhou nos olhos e disse, novamente, com a maior sinceridade que poderia haver no mundo.
- Feliz ano novo.

E, pela primeira vez em 24 anos, eu acreditei, realmente acreditei, que aquele seria um feliz ano novo.