Olhei para baixo, vi o rio cortando o desfiladeiro, as corredeiras deixavam a superfície branca da espuma que ficava na água ao bater nas pedras pontiagudas no fundo das águas geladas. O frio cortante do inverno tomou conta do meu estômago, vislumbrei a minha vida ao dar aquele passo, o ultimo passo em direção à morte.
Vi minha primeira namorada, o quanto doeu ter terminado.
Vi minha segunda namorada, a dor não diminuiu.
Vi minha família em volta da minha cama de hospital.
Vi meus amigos, bebendo um chopp em um fim de tarde.
Então eu a vi, linda como a primeira vez, a camisa branca e calça de ginástica preta, os cabelos bem presos em um rabo de cavalo e pouca maquiagem, foi amor a primeira vista e eu, bobo como sempre fui, não consegui falar com ela. Voltava todo dia só para vê-la passar, até que tomei coragem e me apresentei. 2 semanas depois estávamos namorando, 1 ano depois casando.
Como que tudo isso me trouxe até aqui? Caindo em direção à morte certa.
Acordo completamente suado, os lençóis brancos transparentes de tanto suor, dou um salto em minha cama e não a vejo ao meu lado, olho para minhas mãos enrugadas e me lembro de que fazia 40 anos desde que nos casamos, que fazia 2 semanas desde que ela se fora, e chorei, de saudades.
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