quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Casamento
Quando acordei, senti um frio na espinha e um vazio, um vazio que me persegue a anos, um vazio que sinto que só é preenchido quando você está por perto. Anos se passam e esse vazio não fica perto de ser preenchido. Várias mulheres passaram por minha vida, e nenhuma preencheu o espaço que foi reservado para você.
Não foi a primeira vez e não será a última que sonhei com a gente, e até que você diga o contrário, sempre terei esperança que o vazio, um dia, será preenchido.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Fantasma
Um arrepio subindo pela espinha
Quando ele te fala sussurrando:
"O Fim está se aproximando."
A sombra que já não existe
Da luz que nunca existiu
E mesmo assim ainda insiste
Em fingir que não partiu
Um futuro sem passado
Um passado sem futuro
Um tempo atrasado
De mais um tiro no escuro
Sem sair do lugar
Sem conseguir andar
E em um final aterrador
De uma fantasma no corredor
O som ecoante
De um cano ao alcance
O flash da pólvora
Ninguém em volta
O Fantasma se foi
A vida se esvaiu
E o que ainda o corrói
É o vazio que sempre existiu.
O Poço do Fim
Sempre que acho que o fim está próximo me aproximo cada vez mais do fundo.
O Fundo do Poço nem sempre é o fim, ou sua proximidade, todo poço possui um fundo de terra, onde conseguimos cavar com nossa inquietação.
Andando de um lado para o outro, vou me afundando cada vez mais, sentindo a terra molhada preencher meus dedos nus cobertos por uma casca de um tênis desintegrado; e as paredes de pedra viram terra, vou me afogando lentamente na água que eu mesmo cavo e ajudo a preencher com minhas lágrimas.
"O Que foi, Lassie, o pequeno Jimmy caiu no poço?", nem Lassie poderia me salvar de mim mesmo, e o poço fica mais fundo.
No fundo do poço encontro as sombras de mim mesmo, encontro cada uma de minhas fases em que achei que estava no fundo, e passo por eles como se fosse um carro em uma auto-estrada, em uma velocidade terminal supersônica.
Nem mesmo as sombras cadavéricas de mim mesmo poderia me ajudar na escalada, o poço sem fim do fundo do poço se alongava e se alongaria para a eternidade, ou até que minhas lágrimas sejam o suficiente para saciar toda a sede da humanidade, tal como Atlas segurando o peso do mundo nas costas, sinto o peso do meu próprio mundo sedendo meus joelhos e me forçando a ajoelhar, pedir perdão e desistir.
Sinto o cheiro da terra e ouço o eco da água, já não consigo ver a borda, me sento no fundo esperando que seja o fundo do poço, mas a terra sede sobre mim e sinto, é o fim do poço.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Solidão
O cheiro do seu perfume ainda está no travesseiro, que me recuso a lavar. Horas ainda acho seu cabelo na pia do meu banheiro, um fio solitário pendurado ao lado da torneira, e ali permanecerá se depender de mim. A marca do seu corpo está no colchão, ainda que raso, ainda consigo sentir sua silhueta se passar a mão com atenção o suficiente, como um cego lendo o braile das suas cartas de amor.
As noites mal dormidas me fazem te ver a cada virada de olho em uma esquina, em cada olho bem pintado, em estranhos na rua, me lembro dos seus olhos de cigana. A cada linha de um livro de Caio Fernando Abreu lembro das suas palavras, e a cada cigarro, lembro quando me pedia um trago, me devolvendo ele pela metade com a marca do seu batom.
Me revirei de novo na cama, olhei o relógio, 4:45, abracei o seu travesseiro como toda noite, e pude sentir seu cheiro. O aroma doce do seu shampoo me acalmou, o cítrico do seu perfume me despertou lembranças e imaginei seu toque enquanto abraçava o travesseiro.
Uma única lágrima escorreu do meu olho, sentindo a sua falta, não sei quando voltará, mas seu travesseiro estará lhe esperando, assim como meu peito, para que possa descansar seus pensamentos e transcender seus sonhos.
Telefonema
Eu não tinha o que falar, só queria ouvir a sua voz. Você tinha muito a falar, e eu só queria escutar. Seu monólogo sobre o seu dia fez parte do meu, e por isso ele foi feliz. Imaginei você ao meu lado, falando, e eu observando como seus lábios vermelhos se moviam, e como as suas cordas vocais transmitiam som tão encantador. Uma voz tão poderosa em um corpo tão sereno. Sua voz casa com sua personalidade, e sua personalidade é o que faltava em minha vida.
Liguei só para ouvir a sua voz, e para saber como você estava, mas o mais importante, para dizer o quanto eu te amava.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Nua
Jogou-me à cama e ajoelhou-se na minha frente, colocou a cabeça em meu colo e despiu-se. Despiu-se emocionalmente.
As lágrimas de seus olhos negros o deixavam ainda maiores, a maquiagem borrada exibia a dor que ela sentia, a cada palavra emocionada, sentia ela partir um pouco de meu alcance. Entendi suas angústias, entendi seus medos e partilhei suas dúvidas, beijou-me a mão enquanto eu enxugava suas lágrimas e acariciava seu rosto com ternura. Em meu colo ela cometeu suicídio emocional e a bala ricocheteou em meu coração de pedra, o fazendo sangrar um pouco.
Revelei a ela meus sentimentos, as lágrimas pararam de escorrer enquanto sangrava pela ferida em meu peito, espirrando emoções e expondo minha fragilidade que, com esforço, consegui controlar.
Aquele beijo amoleceu meu coração, sua ruptura emocional enfraqueceu a minha alma, e aquele tiro certeiro do cupido, fez meu coração, eternamente seu.
Vozerio
Sua voz preenchia minha mente, ecoando a doce melodia dos anjos. O roteiro escrito em minha mente foi jogada fora quando sua voz encontrou meus ouvidos, perdi meu chão e ganhei o céu.
Imaginei seus lábios se movendo, imaginei se seu coração disparara como o meu, casei sua voz a seu lindo rosto, e o casamento perfeito aconteceu.
Fiquei alguns milésimos de segundo encarando minha parede, enquanto tudo isso passava pela minha cabeça, finalmente respondi.
Ficamos 30 minutos no telefone, não queria desligar, mas precisávamos dormir.
Sonhei com a voz dela aquela noite, nunca dormi tão bem na minha vida.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Ciúmes
Nosso amor ainda é pequeno, é embrionário e irá crescer, a relação de Yin e Yang do amor é um balanço frágil de ser alcançado, e ainda mais frágil para ser destruído.
Nossa simbiose emocional começa compartilhando o nosso amor e esquecendo nossos ciúmes, meu amor é o suficiente para calar minhas dúvidas, é o suficiente para esquecer o que sofri e tudo graças a você.
Meu coração partido foi remendado pelo seu sorriso, meu espírito estilhaçado foi revitalizado pelo seu abraço e minha mente desiludida desafiada pelas suas palavras. O futuro duvidoso que nos aguarda me enche de medo e ansiedade pelo desconhecido, e estar ao seu lado me dá coragem, segurar sua mão me dá confiança e consigo enxergar o caminho mais afrente.
Existem pedras no caminho, existem espinhos ao lado da estrada, mas um lago sereno e pacífico em seu final. Me dê sua mão, e vamos prosseguir juntos a paz de um lago.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Dom Quixote.
A cada moinho de sanidade estilhaçado pela sua lança imaginativa encaro o mundo com outros olhos, a cada dedicatória para a mais bela das princesas imagino minha amada, e a cada lamento de seu fiel amigo vejo como até seus melhores amigos podem te prender ao chão.
Oh, Quixote de la Mancha, não deixe nunca que seus pés fiquem presos no chão ou que cortem as asas de sua imaginação, sois todos nós, imaginativos e inventivos, idealizadores e realizadores. Não há dragões que não possamos vencer, sejam eles moinhos de vento, ou metáforas de nossos piores medos.
Lamúria
Jurei meu amor, jurei pra toda a vida, e você o rejeitou. Não adiantava mais, eu já o tinha comprometido. Doei-o todo pra você, e você o jogou fora. A cada gota salinizada que era derramada de meus olhos e morria em minha boca seca, sentia o gosto do seu fel misturado com a lembrança dos seus lábios doces.
A cada espasmo involuntário do meu coração, me lembro de como você o arrancou de meu peito e esfregou-o em minha face, não importava minha doação, tudo para você era irrelevante. Meus sacrifícios foram em vão.
Meus lamentos e lamúrias se perdem abafados pelo som da nossa música, e, a cada passo que dou em direção contrária a minha cama, sinto menos o seu cheiro. Agora fico abraçado com seu travesseiro para não perder-te de vista.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Ajuda.
Vi meu funeral, com o medo de ser enterrado vivo, revivi todos os meus pesadelos mais vívidos, a morte não veio personificada de um ceifador, como os filmes me sugeriam, veio personificado do rosto inchado de minha mãe. Aquela cena me deixou extremamente perturbado, tentei gritar, avisar que estava vivo, avisar que meu coração ainda batia.
Era tarde demais. Eu não estava mais vivo, minha alma estava vendo meu enterro, a morte, e sua verdadeira face, estavam do meu lado. Era uma face bela, a mais bela que eu poderia imaginar, talvez fosse esse o conforto da morte, ver a verdadeira beleza do mundo antes de ir para sempre.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Liberdade
Um último suspiro de desejo escapou de seus lábios antes dela dormir, fiquei observando seu peito nu, de encontro ao meu, se movimentar a cada respiração, ficando cada vez mais leve e serena, sua coxa entrelaçada a minha, revelava uma tatuagem da Frida Kahlo, e eu me lembrava que a mulher que estava em meus braços era uma mulher de personalidade.
As marcas de unhas deixada em minhas costas sangravam a cada batida, e me faziam lembrar dos momentos anteriores, vi a marca do seu batom em minha mão, olhei para seus lábios e percebi que todo o batom que estava ali agora está espalhado pelo meu corpo, manchados pelo suor de nossos corpos.
Abracei-a com ternura, querendo manter seu calor sobre meu corpo, ela retribuiu o abraço acalmando meu coração e minha alma, beijei sua cabeça e dormi, sentindo suas coxas me abraçando.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Incógnita
O mistério por trás do sorriso de Mona Lisa não é capaz de de se igualar ao mistério por trás daquele olhar, o brilho no canto direito de seu olho esquerdo me revela que existe algo a mais para ser explorado, o resto de colarinho que ficou em sua boca me deixou com inveja de estar tão próximo de seu doce e a marca de batom no copo ainda me fazia imaginar qual o seu gosto.
Ela repousou a mão sobre a mesa, revelando as unhas bem pintadas, coloquei minha mão sobre a dela e senti o toque de seda que aquelas pequenas mãos possuíam, não queria larga-las, não queria deixar de sentir a pele dela em contato com a minha, o calor que ela possuía acalmava minhas mãos trêmulas de ansiedade. Ela virou a mão como se me convidasse para apertá-la, segurei-a com todo a delicadeza que minhas brutas mãos foram capazes, os dedos dela se fecharam sobre as costas de minha mão em um aperto seguro, e ela ainda sorria.
Prometi a mim mesmo jamais largar aquela mão, prometi a ela que a protegeria, prometi ao mundo que nada nos machucaria e prometi a todos os deuses egípcios que cobra alguma nos alcançaria.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Melancolia.
Passei a noite em claro novamente, meus olhos estavam pesados e a cada piscada colavam por um segundo, antes de reabrirem em um esforço hercúleo. Minhas projeções mentais estavam cada vez mais vívidas, dando uma impressão nítida de ilusões. Os fantasmas que habitavam minha mente me assombravam pessoalmente. A cada passo que eu dava em direção a cozinha, via um espírito me assombrando, a cada olhar para o espelho me reconhecia menos. Minha barba engrenhada estava ainda mais espeça, meus cabelos estavam se alongando em um mullet, e minhas unhas estavam grandes e rachadas. Eu me reconhecia como mais um fantasma ilusório.
A geladeira estava vazia, exceto por dois tomates podres e uma garrafa d'água vazia, o congelador estava com uma camada espeça de gelo, suguei aquele gelo de gás carbônico com meus lábios, a queimadura causada por ele ardeu mais em minha alma do que em minha boca. Eu era mais um cadáver perambulando pelo cemitério do mundo. Minha forma cadavérica poderia ser confundida com a de um zumbi de Romero, e eu torcia para que um matador de zumbis invadisse minha porta para pôr fim a meu sofrimento.
Arrastei meus pés de volta para cama, o blackout já não projetava as luzes na parede. Quanto tempo perambulei sem sentido em meu apartamento de 50 metros quadrados? Será que dormi em pé novamente? Por que ainda me sentia tão cansado? Olhei uma foto antiga minha e não me reconheci, joguei o porta-retratos na parede com a frustração nítida de quem envelhecera, empurrei meu travesseiro para a borda da cama e deitei-me encarando o teto.
Os faróis dos carros projetavam uma linha luminosa cada vez que passavam, depois do 20º parei de contar e fiquei apreciando as formas que os fantasmas tomavam iluminados por esse novo fator. Minha perna começou a formigar, primeiro os dedos, depois o pé, subindo lentamente até o joelho como se um formigueiro estivesse sendo construído sobre meu corpo. Chegaram ao meu peito e senti minha respiração falhar, ao chegar no pescoço já estava prendendo a respiração, minha língua tornou-se azeda como leite podre e, ao chegar nos meus olhos me vi de cima. imóvel, com o peito parado, o coração ainda palpitava, fraco, mas ainda batia. Que ironia, nunca acreditei em alma e, ainda assim, eu estava me vendo. Ainda sentia meu coração bater no ritmo do relógio barulhento ao lado do travesseiro, a cada segundo uma batida, depois a cada três segundos, uma batida, até que não havia mais batidas.
Morri no meu apartamento do mesmo jeito que vivi. Sozinho e recluso. Morri no escuro, esperando o herói que iria por fim ao meu sofrimento. O herói era Hades, que me abraçava com seus braços e seu odor pútrido me levando para o tártaro.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Estranhos
É difícil assumir que a pessoa mais especial para você durante dois anos agora é só mais um estranho dentre 7 bilhões no mundo. Onde foi que tudo deu errado? Onde foi que o amor acabou? Será que realmente acabou ou simplesmente ficamos acomodados com ele? A rotina sempre foi a mesma, será esse o problema? Essas perguntas ecoam a meses na minha cabeça.
Quanto tempo demorou para nos apaixonarmos? Será que foi o mesmo tempo para deixarmos de nos amar? Quando tudo começou foi o mesmo momento em que tudo começou a terminar. Não existe mais opções a não ser o fim. Tudo termina, inclusive esse texto.
Primavera
A cada passo no jardim, descobria novas sensações, meus pés descalços recebiam com prazer as gramas por entre os dedos, e com surpresa cada pedra fora de posição. A terra, ainda molhada, ficava presa em meus calcanhares e, sem me importar, deixava minhas pegadas por entre canteiros.
Deitei-me à sombra de uma árvore, ao lado do rio, ouvi os pássaros cantando, festejando o fim da chuva, o rio batia nas pedras com violência, simulando o barulho de uma cachoeira, adormeci e sonhei com ela ao meu lado, deixando as pegadas ao lado das minhas e recebendo meu abraço sob a sombra desta árvore. Acordei esperançoso que a primavera a traria de volta pra mim.
O "Não"
- Mas, por que?
- Por que eu não quero.
- Ah vai, só um pouquinho....
- Não. Para, tá machucando!
- Tá nada, deixa de ser fresca!
- Não é frescura, para, sério, ta me machucando, para!
- Tá bom, parei...
Sentei, ainda suado e ofegante, ela continuou deitada.
- Você é muito bruto - me disse.
- Eu? Você que estava pedindo!
- Tava nada. E eu te disse pra parar.
- Tá bom, da próxima vez, se alonga sozinha...
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Solidão
A cada sorriso falso, eu tento encontrar
Em uma garrafa de cerveja e um cigarro amassado
Um sentido para meu passado.
A noite se adensa a cada instante
Pairando sobre a cabeça o destino de cada amante
E a solidão de quem busca uma alma a compartilhar
E a cada gole, trago ou tapa, fica mais difícil encontrar.
Sem sentido para cada sorriso.
Nem a direção de cada olhar.
E no fim, vazio.
É como irei ficar.
Rio sozinho desesperançoso
Pois cada lágrima me deixa ansioso
que, no caminho a seguir
Irei, finalmente, parar de mentir
No Inicio eu existia
No meio eu meramente convivia
No presente simplesmente mentia.
E no futuro, não sei como seria.
Brinde
- Estamos aqui de novo. Mais um ano, mais uma mesa e mais uma porção de batatas. Todo ano fazemos a mesma coisa, pedimos 2 cervejas e uma batata e sentamos na mesma mesa, falamos sobre os mesmos assuntos e rimos das mesmas piadas. Temos a rotina de um casal juntos a 50 anos, que sabe exatamente a hora que o parceiro levanta para ir ao banheiro.
"Esse ano eu quero fazer diferente, quero começar nossa conversa com um assunto incômodo. A perda de uma pessoa em nossa mesa.
Todos se entreolharam, não sentindo a falta de ninguém.
- Sim, perdemos uma pessoa dessa mesa, nobres amigos, perdemos a mim.
"Todo ano venho até aqui e me sinto vazio, ouço vocês falando de mulheres, futebol e política como se fossem os maiores especialistas do mundo. Ouço e rio forçadamente das piadas idiotas de vocês para tentar fazer parte do grupo. A verdade, companheiros, é que não suporto olhar para a cara de vocês nem mais um segundo, e todo ano repetimos o mesmo ritual. Agora digo, não mais...
Despertou de seus devaneios quando a cerveja acabou de ser colocada no copo. Ouviu uma piada sobre política e riu forçadamente, desejou silenciosamente um brinde a sua hipocrisia.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Je T'aime
O doce das suas palavras encontravam os espinhos de meu coração. O músculo fossilizado que insistia em bater em meu peito recebia uma rachadura a cada suspiro dito e a cada grito abafando o grave das caixas de som.
Começou com um "gostei de você", evoluiu para um "te adoro" e, finalmente chegou no "te amo".
Não resisti a tamanho choque desfibrilizante em meu peito e aquela outrora pedra voltou a bater com força. Não achava as palavras pra responder aquela injeção de adrenalina em meu cérebro, todo meu sangue voltara a fluir deixando minha face rubra. Não havia mais tempo, então respondi.
-Eu sei.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Vento no Litoral
Ouço as ondas batendo no rochedo prevendo a turbulência que está por vir.
O som dos canhões disparados em alto-mar aceleravam meu coração.
O vento originado pelo movimento do mar balançavam meus cabelos
Minha nudez demonstrava meu comprometimento com a terra.
O invasor chegou, ancorando em meus portos de pesca,
Não entendi o que falavam,
Não entendiam o que falava.
Voltei para cima dos rochedos para sentir o vento novamente.
Um ultimo tiro de canhão não acelerou meu coração, senti um calor nas minhas costas,
Meu peito estava úmido e quente,
Não ouvi mais o som das ondas, só ouvi o meu coração parando.
O Sol amarelo se tornava vermelho e escuro.
Perdi minha terra junto com minha vida.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Criatividade
Sentei no banco da praça à fim de escrever.
Subi no palco à fim de cantar.
Não pintei.
Não escrevi.
Não cantei.
Peguei meu violão e dedilhei um quadro.
Peguei minha tela e cantei uma ópera.
E em uma página em branco encontrei o vazio.
Minha caneta sem tinta não mais expressava o que eu sentia.
Com a corda no pescoço, saltei do banco.
O clarão luminoso que se seguiu me despertou.
Olhei o sol invadindo minha janela e percebi,
Meu tinteiro estava cheio novamente.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Primeiro Encontro
Pedi um chopp para relaxar. O caneco branco de gelo chegou no mesmo momento em que ela entrava pela porta, vestida de maneira despojada ela parecia ainda mais linda, a bermuda jeans e a camisa larga com uma alça caída sobre o ombro. Os cabelos soltos e a pouca maquiagem revelavam a perfeição em seu rosto.
Levantei, desajeitado, quase derrubando o garçom que estava à minha direita, ela riu enquanto eu pedia desculpas a ele, me abraçou e me deu um beijo na bochecha, pediu um chopp pra ela e se sentou ao meu lado.
Conversamos até o bar fechar, os garçons já estavam recolhendo as mesas, e pedimos o último chopp da noite. As 3 da manhã estava chamando um taxi para levá-la pra casa. Me despedi com um beijo na testa, quando ela abaixou o vidro, já estava meio tonto, e ela também. Nos divertimos e, no momento em que o taxi saiu da minha vista, liguei para ela.
- Eu só queria dizer que já estou com saudades.
Ela riu, e citou uma de nossas musicas favoritas.
- Por que você só me liga quando está bêbado?
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
I Seek You
O Cheiro do cloro
De repente as braçadas sessaram, o ondular diminuiu e o pálido azul ficou ainda mais pálido com a luz da lua, ainda submerso pude observar as estrelas aparecendo e sendo refletidas pelas águas, agora calmas, da piscina.
O ar que ocupava meus pulmões estava se esvaindo vagarosamente, fazendo minha cabeça anuviar, as bolhas resultantes da minha expiração subiam lentamente diante de meus olhos, eu estava calmo como nunca estivera, meus problemas haviam desaparecidos, lavados pela braçada dos nadadores.
Emergi com um pulo, tomando um novo e fresco fôlego pelo ar do anoitecer, o vento frio tomou conta do meu rosto, meus cabelos e barba molhados faziam a água ainda escorrer sobre minha face vislumbrando o horizonte, em um mergulho eu estava curado. Em um mergulho estava novamente são e em uma braçada estava vivo novamente.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Enigma
A paisagem, cada vez mais nítida me dava a esperança de que aquele enigma seria recompensador em seu final, as peças brancas, com detalhes como flocos de neve, únicos de sua própria forma, deixavam claro que havia névoa sobre aquela imagem. As peças foram se encaixando até não terem mais forma distinta, mas ainda assim permaneciam soltas sobre a mesa.
Reparei no gazebo montado no fundo da imagem, os padrões coloridos, formando uma íris azul em um fundo branco, os olhos se revelaram, a partir dos olhos tudo ficou mais fácil, a boca, o nariz, o cabelo bem penteado e o vestido...
A névoa não era névoa, era um lindo vestido de noiva, emoldurando-a com a perfeição de um escultor em mármore, tamanha beleza não poderia ser descrita com palavras mundanas, as peças que sobraram mostravam um negro profundo, e o único espaço disponível era ao lado dela.
Montei as peças restantes, o terno bem alinhado de risca de giz revelava um homem sem face, as peças do rosto para sempre foram perdidas, e aquele quebra-cabeça nunca revelará quem seria seu verdadeiro noivo.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
À Primeira Dança.
Nunca acreditei em amor a primeira vista, ou sempre me recusei a acreditar que acreditava, até me atingir, ao vê-la dançando naquele ambiente eu percebi o quanto sempre estive enganado, a alegria me contagiava, eu fiquei no bar, olhando enquanto ela recusava cada tentativa de aproximação de outras pessoas, preferindo ficar sozinha do que ter uma noite insignificante.
Me vi pensando nas chances que eu tinha, quase nenhuma. Preferi ficar com minha cerveja na mão e ouvindo as músicas que tocavam em alto volume, combinando os riffs das guitarras com a luz estroboscópica, que tornavam os movimentos dela mais lentos, e ainda assim, mais perfeitos. Não conseguia desviar meus olhos, e percebi que ela olhava em minha direção, provavelmente para alguém atrás de mim, como se eu fosse invisível.
Meus pés batiam no ritmo da música, como se pedissem para dançar, ela veio em minha direção e pegou em minha mão, sem falar uma palavra, e me puxou para o centro da pista. Os olhares dos outros homens que a abordaram olharam para a cena, como se invejassem, eu fiquei parado, sem reação, enquanto ela dançava em minha volta, se divertindo com minha cara de espanto. Continuei ali, parado, com minha cerveja na mão, observando-a de perto. As luzes acenderam, a música parou e ela se foi, sem dizer uma palavra.
Da mesma forma que começou, terminou. Do nada, no escuro da noite, nunca saberia seu nome, mas a amaria para sempre.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Online
- Oi, Tudo bem?
- Oi, tudo, e você?
-Tudo bem.
-...
Eu não sabia como conduzir aquela conversa, a inabilidade social que me acompanhava pela vida me perseguia também pelo anonimato da internet. As escolhas das palavras transmitiriam o sucesso daquela conversa. Uma amizade? Possivelmente. Mas o quanto alguém estaria disposto a encontrar alguém que conheceu online? Poderíamos ser ambos identidades falsas, protegidas por um endereço IP. Qualquer palavra em falso poderia resultar em um desastre.
Pensei com cuidado nas minhas palavras, pensei como se escrevesse um poema, tentava rimar meus pensamentos para conduzir a conversa, uma prosa sem sentido certo mas com destino concreto. Fui eu mesmo, esperando que ela fosse ela mesma.
Trocamos mensagens, trocamos músicas e gostos, compartilhamos uma amizade, ainda que virtual. Meu preconceito de encontrar alguém online desaparecia a cada mensagem trocada. A cada vislumbre da pessoa real que se encontrava por trás do teclado do outro computador.
Combinamos de nos encontrar em uma festa, nunca tínhamos nos visto, mas a considerava uma das minhas amigas, talvez tivéssemos nos esbarrado antes, mas não nos reconhecemos, até que ela me viu, abriu um sorriso e me abraçou, a amizade não era mais virtual, era pessoal, e sabia que era uma pessoa que eu levaria sempre comigo.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Diversão
Dormi com os ouvidos zumbindo, os sons da noite anterior ainda ressoava em meus ouvidos, minha cama vazia convidava os dois corpos suados que estavam voltando de mais uma noite de diversão.
Qualquer motivação externa era apagada pela exaustão que se encontravam, ao se despirem só queriam o conforto de um banho quente e o frio do ar condicionado.
A água caindo sobre os corpos nus relaxava os músculos e despertava a libido. O colchão de casal os convidava para mais uma noite de segredos e sigilo entre os dois.
Não importava quem os ouvisse, o que importava era a intimidade dos dois.
Ao fim estavam suados novamente, mas não se importavam, o sentimento fora retribuído e a noite divertida. Era o que importava, e no dia seguinte iriam por caminhos diferentes. Se divertiram, e era o que procuravam.
Sonho
Engraçado como os sonhos funcionam. Uns acreditam que possam conter premonições, outros que são só imagens desconexas que nosso cérebro tenta dar sentido. Eu não sei.
Sonhei que voava e que caia, sonhei que morria, sonhei que o mundo acabaria. Pelo menos sonhei.
Meus sonhos são o retrato do que quero que aconteça.
Sonhei com ela novamente. Estraguei tudo, mesmo em sonhos.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Estrada
A estrada estava vazia, alguns carros passavam por nós, o sol a nossa esquerda projetava sombras que enquadravam o rosto dela, que olhava fixo no horizonte a nossa frente, os óculos escuros escondendo seus belos olhos verdes. As janelas abertas deixavam entrar o vento produzido pelo carro, o que fazia seus cabelos se agitarem, e, de alguma forma, pareciam perfeitamente penteados.
O mar batia fraco, escondendo o sol a cada onda um pouco maior, o rádio começa a tocar a nossa música, nos olhamos e sorrimos, os sons loucos do mundo a nossa volta nos fazia bem, um riff um pouco mais lento embalou nossa viagem em direção ao poente, o barulho das ondas entraram no ritmo da música, e o mundo desapareceu. Eramos só nós dois, o carro, o Sol e o mar.
Íamos em direção ao futuro.
Íamos em direção ao desconhecido.
Fui em direção a ela.
E seguiremos juntos, pelo resto de nossas vidas.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
O Outro lado do Rio
Vi o mar bater nas pedras do Arpoador, imaginando quantas lágrimas foram necessárias para salgar aquele mar. Vi surfistas dropando em ondas que não atingiam a altura suficiente e sorrindo pelo erro cometido. Vi crianças correndo e caindo, se levantando e voltando a correr, sorrindo.
Quando desaprendemos a sorrir quando caímos? Em que momento da nossa vida chorar se tornou a saída mais fácil? Olhamos o horizonte ao mar querendo esquecer o passado, mas esquecemos de vislumbrar o futuro. Mais uma lágrima escorria no meu queixo e caia nas pedras. Olhei para o lado e vi uma mulher fazendo o mesmo que eu, mas sorria ao chorar. Havia um brilho no olhar dela que me deixava intrigado.
Minhas lágrimas pararam de escorrer enquanto eu observava intrigado aquela nova figura sentada ao meu lado na pedra do Arpoador, sentindo os respingos das ondas e o vento que vinha do oceano, ela não parecia ter reparado que eu a observava e continuava sorrindo, olhando as estrelas aparecendo lentamente após o pôr do sol. Ela fungou forte, e por esse único segundo o sorriso desapareceu dos seus lábios e logo depois voltou a aparecer, como se nada tivesse acontecido. Voltei a encarar os surfistas com aquela imagem me intrigando.
Sinto algo quente na minha mão, algo que, de alguma maneira, me confortava e me dava segurança. Ela segurava minha mão e ainda olhava pra frente chorando e sorrindo, e eu comecei a sorrir enquanto chorava, comecei a perceber as estrelas se revelando por trás da poluição das luzes da cidade, vislumbrei o universo se formando enquanto ela segurava minha mão. Eu estava sorrindo novamente, e se dependesse dela, nunca mais pararia de sorrir.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Penhasco
Vi minha primeira namorada, o quanto doeu ter terminado.
Vi minha segunda namorada, a dor não diminuiu.
Vi minha família em volta da minha cama de hospital.
Vi meus amigos, bebendo um chopp em um fim de tarde.
Então eu a vi, linda como a primeira vez, a camisa branca e calça de ginástica preta, os cabelos bem presos em um rabo de cavalo e pouca maquiagem, foi amor a primeira vista e eu, bobo como sempre fui, não consegui falar com ela. Voltava todo dia só para vê-la passar, até que tomei coragem e me apresentei. 2 semanas depois estávamos namorando, 1 ano depois casando.
Como que tudo isso me trouxe até aqui? Caindo em direção à morte certa.
Acordo completamente suado, os lençóis brancos transparentes de tanto suor, dou um salto em minha cama e não a vejo ao meu lado, olho para minhas mãos enrugadas e me lembro de que fazia 40 anos desde que nos casamos, que fazia 2 semanas desde que ela se fora, e chorei, de saudades.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Coragem
Fingi que não era comigo, que não devia explicações para ninguém, mas me enganei. Devia explicações a mim mesmo, como me tornara aquela pessoa? Eu não me via fazendo o que fiz a 2 dias 3 meses atrás. Precisei de coragem. Coragem de porcentagem etílica e, de alguma forma, que me faltava.
Subi no precipício e saltei em direção ao infinito, em direção ao desconhecido e a incerteza tomou conta de mim, a minha atitude foi errada, foi certa, foi atrasada. Minha vida pessoal vira mais um filme de Woody Allen, e não é um com final feliz, é melancólico, mas que me fez pensar na vida.
Quebro a quarta parede e me dirijo ao público, pinto à aquarela o poster e, pela primeira vez, estou visando o futuro, em vez do passado.
Ressaca
No travesseiro, a marca de suor de sua nuca, e os respingos que caíram de sua testa quando ele se levantou. A boca, seca como o deserto, implorava por água. E a cabeça pulsava a cada batida de seu coração. Seus olhos começaram a se acostumar com os novos estímulos e o alarme do celular parara de tocar.
Olhou para a cama e a viu, deitada de costas para ele, com os cabelos loiros despenteados, espalhados pelo travesseiro, as costas arqueadas com suas pernas curvadas para trás, o cobertor tapava só o suficiente, ela se virou na cama e ele viu seu batom roxo, ela começou a abrir os olhos, revelando seu esmalte azul ao coçar o olho com graça magistral, ao vê-lo ela sorriu, "bom dia." ela disse, e o coração dele pulou uma batida, não sentia mais sede, não sentia mais a cabeça latejar e o sol era uma bênção para ele naquele momento. Sorriu e respondeu, "Bom Dia...".
Daquele dia em diante, ele nunca mais teve uma ressaca que não fosse curado pelo sorriso dela.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Noite
O som das caixas acústicas o ensurdeciam, batiam em um ritmo constante com uma progressão nítida, podia-se chamar "música". O vapor alcoólico exalado pelas pessoas amontoadas naquele espaço minúsculo era o suficiente para deixa-lo embriagado e as luzes piscando foram o suficiente para ter alucinações. Precisava respirar.
Saiu daquele pequeno espaço em direção a área de fumantes, mesmo com toda a nicotina era mais fácil de respirar do que dentro do clube. Pegou a cerveja que estava esquentando em sua mão e deu uma golada. Olhou em volta, tentando reconhecer algum rosto familiar, sem sucesso.
Uma mulher se aproxima com um cigarro entre os dedos, as unhas pintadas de azul escuro e um batom roxo envolvendo os lábios pequenos.
- Tem fogo?
Pegou o isqueiro de dentro do bolso e acendeu o cigarro dela, e via suas pupilas dilatarem ao receber aquela dose direta de nicotina. A marca do batom ficou em volta do cigarro e o sorriso amarelo daquela jovem se mostrou sincero.
- Valeu. - deu mais uma tragada. - Tá sozinho, cara?
- Na verdade vim com um amigo, mas ele tá com a namorada lá dentro e eu fiquei na pista.
- Vacilo. Eu tô com umas amigas ali no canto, quer ficar ali com a gente?
- Tudo bem, não quero atrapalhar.
- Ih, cara, relaxa, pelo menos tu não fica sozinho.
Aceitou, meio embaraçado, e foi em direção a um grupo de mulheres que riam alto, se apresentaram e continuaram a conversar. Ele ficou quieto a maioria da conversa, apenas fazendo comentários que achava engraçado no momento apropriado, todas riam de suas piadas, por mais idiotas que fossem, menos a que lhe pedira fogo. Ela sorria contidamente, mostrando que tinha sido a que menos bebera, mas ainda assim parecia se divertir.
As 5 da manhã todos já estavam saindo, ela e as amigas aparentavam cansaço e ele um pouco de sono. Ela se aproximou novamente.
- Tá de carro?
- Tô sim, precisam de uma carona?
- Minhas amigas moram aqui perto, e a casa ficou cheia, eu vou ter que esperar o ônibus...
- Não, eu te dou uma carona, faço questão.
Ela morava perto dele, a cerca de 20 minutos da festa, ele a deixou na porta de casa e ela ficou olhando para os olhos dele.
- Me diz uma coisa, por que você não chegou em mim?
- Bom... - Ele ficou vermelho - É que eu não tenho o menor jeito para isso. Eu gosto de conhecer a pessoa antes.
- E agora que você me conhece, e sabe onde eu moro. Por que ainda não me beijou?
Ele segurou sua bochecha carinhosamente e se aproximou dela, beijou-a suavemente nos lábios e ela retribuiu. Ficaram 2 minutos ali, dentro do carro se beijando. Ela abriu a porta e saiu correndo abrindo o portão do prédio. Ele ficou ali, sem entender nada enquanto ela sorria, entrando no prédio e olhando para trás sorrindo para ele.
Percebeu um pedaço de papel no banco do carona com um número de telefone, discou para o número anotado e ouviu a voz dela no outro lado da linha.
- Sabia que você era do tipo que ligava logo depois.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Ira
O sangue pingava dos nós dos dedos, cerrados em um punho violento, a mão direita estava toda cortada e a esquerda apoiava o peso do tronco na pia do banheiro. O espelho recém quebrado refletia 7 imagens diferentes do mesmo rosto. A marca do punho estava centralizada nas rachaduras, apresentando vários cacos de vidro que refletiam pequenos feixes de luz.
Não reparou na dor, na angústia ou no sangue que pingava em seus sapatos caros. Estava com raiva, precisava estragar algo belo. O espelho, dentro da moldura dourada, era o alvo perfeito para aquele momento. Não derramou uma lágrima. Não esboçou uma cara de dor. E mesmo assim estava exausto. A respiração ofegante contrastando com seu terno e seguia o mesmo ritmo do suor que pingava de sua testa. Um soco. Tudo que foi necessário fora um soco.
Olhou para a mão ensanguentada e o sapato já manchado de sangue, lavou a mão e arrumou a gravata, mas as marcas do vidro estavam bem visíveis, não havia como disfarçar o que havia acontecido, ainda não sentia a dor na mão e nem iria sentir, pegou o anel de noivado no bolso, olhou para ele e ficou com raiva mais uma vez, deixou a caixa em cima da pia do banheiro do restaurante e saiu. Ela já não estava mais na mesa, nem em sua vida. Pegou o carro e foi para casa. Deitou-se ainda com o terno e dormiu. Não sentia mais sua mão sangrar, não sentia mais o anel em seu bolso, só sentia o vazio do abandono e se entregou a Morpheus, não querendo sentir mais nada.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Feio
Lembrou-se de todas as vezes que decepcionou alguém. Lembrou-se da forma que tratava as pessoas. Lembrou-se que decepcionara todas as pessoas que passaram pela sua vida. Olhou para suas mãos e as viu normais, seus pés estavam do mesmo jeito, mas sua face ainda estava feia. Passou as mãos pelo rosto e não sentiu as marcas que a vida deixou em seu rosto, mas ainda as via no espelho.
Caiu de joelhos, com a mão no peito. Seu coração disparara e não havia mais ar em seus pulmões. O arrependimento fora tão grande que seu corpo não suportou. Morreu, sozinho como viveu. Triste como deixou muitos. Feio como sempre fora.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Depressão
Os meus olhos secaram, não consigo mais chorar. Minha boca não produz mais saliva e minha garganta não aguenta mais empurrar comida para meu estômago, que se embrulha a cada mordida que dou em um pão velho que achei jogado na mesa do meu apartamento. O sol do verão castiga minhas retinas, querendo somente o sombrio noturno e a escuridão de minha mente.
Fico com vontade de me embriagar toda hora, e talvez assim possa esquecer. Eu quero, mais do que tudo, esquecer o que fiz a você. Quero esquecer que te conheci. "Os momentos bons ficam", dizem, mas e quando não consigo pensar em "momentos bons"? Tivemos conversas, tivemos fases, mas a verdade é que não tivemos um relacionamento. Me precipitei, nos precipitamos. Eu confiava em você, você não confiava em mim. Tudo bem, acharei alguém que confie. Pode demorar anos, não estou com pressa.
Meus amigos, há, amigos...
A verdade é que sou mais um peso no mundo. Um peso morto que continua a respirar. O fim será as cinzas. O fundo do poço é só o primeiro passo para a subida, e admitir que não tem mais como descer é o primeiro degrau.
A tempestade passará, a sobriedade ficará, e a vida, um dia, terminará.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Olheiras
Vesti-me e fui para o bar, na esquina do meu apartamento, olhei o relógio projetado no espelho do elevador marcando 3:25, vi minhas olheiras no espelho e reparei em minha barba mais grossa do que o costume, completamente despenteada.
O bar estava vazio aquele horário, alguns bêbados e alguns casais terminando a noite, sentei-me na mesa no canto do bar, e pedi uma cerveja.
Observei a porta do bar durante 15 minutos e a vi entrar.
As roupas eram despojadas, ela não estava voltando de uma balada. Os cabelos estavam penteados em um rabo de cavalo, com uma franja caindo pelo lado direito do rosto. Pediu uma cerveja e sentou-se no balcão. pegou a garrafa long neck com dois dedos e levou-os até os lábios delicados, bebeu um gole da cerveja e depositou a garrafa de volta à bolacha.
Me levantei, e me dirigi em direção ao balcão, sentei-me ao lado dela, "Noite longa?", ela me olhou com os olhos cansados e vermelhos, "Pois é, não consegui dormir", reparei nas olheiras sob os olhos dela, como marcas de guerra como as minhas, "Problemas com o namorado?", "Quem dera. Meu trabalho me tira o sono.", "Sei como é, não consigo parar de pensar no projeto em que estou trabalhando. As vezes eu só queria tomar uma cerveja e esquecer isso tudo...", "Eu também, mas, parece que a minha já está terminando e a sua já terminou..." completou acabando com a garrafa de cerveja em um ultimo gole. Pedi mais duas. "As vezes, penso que a cidade inteira dorme enquanto estou acordado. Gosto de olhar pela janela e perceber as poucas luzes acessas e imagino se eles pensam a mesma coisa que eu...", "Será que eles estão tão sozinhos quanto eu...", ela completou, bebendo mais um pouco da cerveja recém aberta. "Exatamente."
Ficamos ali, sentados em silêncio até o fim de nossas cervejas, nos levantamos e nos despedimos, não trocamos mais uma palavra, ela foi para um lado, eu segui em frente.
No dia seguinte, as 3:30 voltei para o bar e a vi sentada no bar com 2 garrafas de cerveja ainda geladas. "Pensei que você não apareceria hoje".
5 segundos.
Olhos negros, cabelos castanhos.
Seios fartos, lábios finos.
Seios perfeitos, lábios doces.
Cheiro adocicado, e sorriso delicado.
Gargalhada estrondosa com um sorriso contido.
E tudo que penso é em voltar pra casa.
A música, alta em meus ouvidos, não me deixa esquecer daqueles cabelos ruivos, molhados na piscina no ano novo.
Se tudo pudesse ser, como aqueles 5 segundos, eu seria mais feliz.
Se tudo for, como os próximos 5 segundos, morrerei feliz.
E 5 segundos é tudo que preciso, para te deixar feliz.
Palavras
Escrevi o que sentia, e o que queria sentir. Escrevi mais uma vez como que seria se você não tivesse partido. Escrevi de novo para não esquecer e guardei em um envelope, não selei, não coloquei seu nome e não pensei em te entregar.
Todas as minhas palavras não foram desperdiçadas, simplesmente moldaram o livro que me tornei, suas palavras ainda estão grifadas em um capítulo em minha biografia, todas elas. Mais palavras virão e esculpirão a capa de couro do meu caráter, cada uma delas.
Coloquei a carta em seu túmulo. Sentirei sua falta.
Flores Partidas
Todo sentimento acaba e toda flor murcha.
Todo absolutismo é falho e toda unanimidade é burra.
Tudo que digo é mentira e não deve ser acreditada.
Tudo que escrevo é verdade e deve ser levada em conta.
Tudo que sinto foi expressado.
Tudo que senti foi revisto.
Tudo que sentirei está em aberto.
Todos somos flores partidas, com pétalas ao vento.
Nada volta.
Tudo parte.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
O fim.
Terminar parece ser o fim do mundo, pelo menos pra mim foi. Um ano tentando seguir com minha vida e sendo incapaz, ainda existia amor de minha parte. Não há mais.
Me peguei embarcando em um ônibus para uma cidade que odeio, onde ela morava, e não quero vê-lá, não quero voltar, não mais.
Todo o fim é o início de algo, e espero que meu inicio seja promissor. Vou exorcizar meus demônios, lavar a alma e encaminhar o futuro. Não que o futuro seja certo, mas prefiro a certeza de um futuro Incerto do que a incerteza de. Futuro.
(nota do autor: essa não conta como a crônica de hoje, eu só precisava de um espaço para escrever)
Impacto
O choque foi intencional, não havia como escapar de uma colisão vinda de tão perto, um impacto tão sutil que não deve ter sido percebido por ninguém além dos dois.
Eu a olhei, com a admiração de quem conhece uma nova pessoa, ela retribuiu meu olhar, com uma certeza que nunca me esquecerei. Paguei uma bebida, sentamos em uma mesa e começamos a conversar.
Ela cursava jornalismo, e eu engenharia.
Ela gostava de romances, eu ficção.
Ela gostava de samba, eu de rock.
Não tínhamos nada em comum e, mesmo assim, não queríamos sair um do lado do outro. Chamei um táxi, fui leva-la em casa, pedi pro taxista esperar e paguei a corrida. Ele foi embora. Fiquei olhando ele ir e ouvindo ela rir, olhei sem graça enquanto ela ria, "não quer subir?", e foi aí que começou. Vi que não teria mais como desviar, vi que era mútuo e vi que não queria ir.
Peguei em sua mão e disse "se eu subir, não vou querer nunca mais sair", ela sorriu e me sussurrou, "quem disse que eu ia deixar?".
E a colisão de nossos lábios veio com o barulho da colisão de universos, inaudível para todos menos nós. E nossos mundos se uniram, para nunca mais serem separados.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
A Tempestade
Hoje o sol brilha novamente, ignorando completamente a dor dos que um dia se apaixonaram.
A tempestade que caiu na noite anterior foi um prenúncio do fim, do fim da dor, do fim do desespero e do fim de um ano. O ano acabou, assim como o próximo também acabará, não existe um dia que não venha após o outro.
Alguns bebem, outros ignoram, eu escrevo.
Escrevo para esconder a tempestade em minha cabeça e revelá-la de uma forma verborrágica os sentimentos.
Escrever é para muitos, entender é para poucos, morrer é para todos.
Nunca fui bom em conjugar o verbo "amar", um dia amei, amarei novamente, espero, mas sempre fui bom em conjugar o verbo "esquecer", ainda não esqueci. Mas esquecerei.
