segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Primeiro Beijo



                Saia do apartamento aquela manhã, esperando mais um dia monótono de trabalho, ficar 1 hora no ônibus e 8 horas em um cubículo fedido, fantasiando na mulher perfeita, jogando papéis do memorando sobre a reunião de sexta de manhã na lixeira.
                Entrou no ônibus, estava vazio, escolheu um banco e colocou os fones, cochilou no caminho e acordou 10 minutos antes do seu ponto. Um pequeno lenço de pano rosa, com uma marca de batom vermelho estava em seu bolso da camisa, o cheiro do perfume ainda estava presente naquele pedaço de pano. Se levantou, olhou em volta, o ônibus estava cheio, uma senhora que o acordara ao sentar ao seu lado reclamou enquanto passava. Saltou do ônibus e ficou vendo ele partir procurando pela dona do lenço.
                Durante a fantasia do dia a mulher perfeita usava um lenço rosa no pescoço e tinha um cheiro doce de perfume, a cor do cabelo mudava a cada giro da valsa, e a cada compasso seu batom ficava mais vermelho. Ao se aproximar para beijá-la o telefone toca, ele desperta do seu devaneio e atende a convocação para mais uma reunião de projeto. Na sala apinhada de engravatados e pessoas de camisa social uma mulher alta, com um terno preto se destacava. Imaginou se aquele terno combinava com o lenço rosa. Imaginou se aquele cabelo ruivo e batom vermelho pertenciam a dona do lenço. Imaginou-a dançando valsa, soltando os cabelos vermelhos acastanhados perfeitamente presos em um coque em um movimento de cabeça, imaginou-a trocando o terno pelo vestido de gala e se aproximou para beijá-la. Acordou novamente de súbito ao ser interrogado, sempre no momento do beijo, o beijo inalcançável.
                No caminho da volta uma estudante universitária sentou-se ao seu lado, ele podia ouvir a música saindo dos fones e imaginou se o lenço pertencia àquele pescoço fino, coberto pelos cabelos loiros perfeitamente alisados na manhã daquele dia, a batida do fone tomou conta de sua imaginação, e aquela jovem adulta estava vestida com um vestido brilhante, com uma taça na mão, dançando empolgada com uma batida eletrônica de um DJ qualquer em uma sala escura, pegou em sua mão e se aproximou para beijá-la, agora conseguiria, ela escapava, provocando-o, chegava mais perto e ela virava o rosto para ser beijada na face e quando finalmente cedeu o ônibus deu uma brusca freada, a universitária já não estava ali e o ônibus estava praticamente vazio.
                Sonhou novamente com mais uma das inúmeras possibilidades da dona daquele lenço, uma mulata com o cabelo perfeitamente cacheado sambava em um salão de pisos de madeira, um grupo com caixas, bumbos, cuícas e pandeiros ritmavam seus passos enquanto ela os guiava perfeitamente, seu sorriso era o mais encantador que ele já vira, um lindo contraste do branco de seus dentes com o negro de sua pele, e ele se apaixonou novamente, se aproximou, fez uma reverência e beijou-lhe a mão. Ela retribuiu o gesto e chamou-o para dançar, eram o casal perfeito de Mestre Sala e Porta-Bandeira, a cada rodopio o cenário mudava novamente para o salão de valsa, os estandartes da escola de samba foram substituídos por estandartes de reis e uma coroa substituía seu chapéu de palha, aquela era sua noiva, e ele poderia finalmente beijá-la, se aproximou, conseguiu sentir o calor do hálito de sua rainha bem próximo e novamente acordou.
                Saia do apartamento aquela manhã, esperando mais um dia monótono de trabalho, ficar 1 hora no ônibus e 8 horas em um cubículo fedido, fantasiando na mulher perfeita, ela ainda não tinha face, mas usava um lenço rosa no pescoço.
                O ônibus estava mais cheio nessa manhã, mas o lugar que sentara no dia anterior estava vago, uma jovem de roupa esportiva ocupava o assento ao lado, e novamente cochilou no caminho do trabalho. Sonhava com uma festa de aniversário, ele estava ouvindo a conversa da irmã do anfitrião com uma amiga sobre a festa da semana anterior. Tomou um gole da cerveja long-neck que estava esquentando em sua mão e se virou para ver a sala de seu amigo de infância, quando avistou uma morena, com uma pele extremamente branca se servir de outra taça de vinho. Um vestido rosa tomara-que-caia valorizava as curvas daquela bela mulher, usava óculos e os cabelos curtos emolduravam seu rosto perfeitamente, o batom rosa-choque destacava os lábios perfeitamente desenhados do novo objeto de suas fantasias. Aproximou-se, quase correndo, tomou-a em seus braços e a inclinou como se dançassem e aproximou-se para um beijo. Sentiu seu perfume, idêntico ao do lenço, viu seus olhos verdes se fecharem antecipando o beijo e, novamente, acordou 10 minutos antes de seu ponto.
                A rotina se repetia, esgotando todas as possibilidades de mulher perfeita, e tudo o que fazia no dia era pensar na dona do lenço. O perfume ainda estava lá, bem fraco, mas presente. A marca do batom estava desgastado de tanto passar os dedos imaginando os lábios que beijaram aquele lenço. Mais uma fantasia cruzou sua cabeça, uma princesa em perigo em um castelo alto, uma guerreira lutando lado a lado, e uma atriz que sabia todas as falas de Marlon Brando em “O Poderoso Chefão”, todas variavam em cor, altura, e manequim, mas todas eram perfeitas para ele, pois eram a dona do lenço.
                A reunião de sexta passou, e o memorando sobre a reunião de sexta só vai voltar a ser emitido na segunda. Ele precisava tirar a dona do lenço da cabeça, um colega de trabalho o chamou para o Happy Hour, “Minha namorada vai com uma amiga”, ele disse, “Eu acho que vocês vão se dar bem”. Odiava esse tipo de coisa, mas aceitou, não sabia bem o porquê, mas sabia que queria beber uma cerveja.
                Chegaram ao bar, sentaram em uma mesa e conversaram sobre a reunião e sobre o projeto, estava entediado, querendo ir para casa. Achava que aquilo não teria sido uma boa ideia. A namorada de seu amigo chegou com a amiga, mas ele nem a notou de início, ao nota-la percebeu o rabo-de-cavalo bem-feito, deixando alguns fios de cabelo avermelhados soltos e um batom rosa claro, seus olhos castanhos eram penetrantes e ele achava que ele a conhecia de algum lugar. Ela tomou o lugar ao seu lado e ele não conseguia desviar o olhar. Por algumas horas ele esqueceu a dona do lenço, conversou com uma mulher de verdade e começava a gostar de conversar com aquela mulher, não imaginou-a usando o lenço, não imaginou-a dançando valsa em um salão rodeado de reis e não pensou nela como Porta-Bandeiras, ela estava ali, e seu cheiro parecia tão familiar quanto o cheiro de bolo que sua mãe fazia quando era criança.
                Pagou a conta e a acompanhou até o taxi, o amigo e a namorada já tinham saído, e os deixaram sozinhos, tempo o suficiente para se conhecerem. Abriu a porta do carro, abraçou-a e perguntou
                - Nos encontraremos novamente?
                - Claro, aqui, deixe eu anotar meu telefone.
                Retirou o lenço rosa do pescoço, pegou uma caneta na bolsa e anotou o telefone, assinando com um beijo. O lenço estivera ali a noite inteira? Como não percebera? Ela entregou-lhe o lenço e entrou no carro. Ele fechou a porta e ela abaixou o vidro, ele se aproximou e sentiu novamente o cheiro familiar do perfume, retirou o lenço antigo do bolso e a entregou.
                - Acho que você perdeu isso...
                Ela sorriu quando viu que ele carregava o lenço, puxou-lhe a gravata até que seus lábios estavam próximos aos ouvidos dele e sussurrou.
                - Achei que nunca mais ia te ver.
                Ela o soltou e ele recuou o suficiente para ver os olhos dela brilharem. Se aproximou um pouco mais, ela fechou os olhos de antecipação, ele a acompanhou, sentiu o lábio inferior tremer e a boca ficar seca. O momento tinha chego. Ele encontrara a dona do lenço. Encostou os lábios no dela só o suficiente para sentir o gosto de cereja do chiclete que ela mascava, se afastou com rispidez a assustando.
                - Algum problema?
                - Não. – respondeu com os olhos mareados. – é que sonhei com esse momento a minha vida inteira. O primeiro beijo com minha futura esposa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário