Saia do
apartamento aquela manhã, esperando mais um dia monótono de trabalho, ficar 1
hora no ônibus e 8 horas em um cubículo fedido, fantasiando na mulher perfeita,
jogando papéis do memorando sobre a reunião de sexta de manhã na lixeira.
Entrou
no ônibus, estava vazio, escolheu um banco e colocou os fones, cochilou no
caminho e acordou 10 minutos antes do seu ponto. Um pequeno lenço de pano rosa,
com uma marca de batom vermelho estava em seu bolso da camisa, o cheiro do
perfume ainda estava presente naquele pedaço de pano. Se levantou, olhou em
volta, o ônibus estava cheio, uma senhora que o acordara ao sentar ao seu lado
reclamou enquanto passava. Saltou do ônibus e ficou vendo ele partir procurando
pela dona do lenço.
Durante
a fantasia do dia a mulher perfeita usava um lenço rosa no pescoço e tinha um
cheiro doce de perfume, a cor do cabelo mudava a cada giro da valsa, e a cada
compasso seu batom ficava mais vermelho. Ao se aproximar para beijá-la o
telefone toca, ele desperta do seu devaneio e atende a convocação para mais uma
reunião de projeto. Na sala apinhada de engravatados e pessoas de camisa social
uma mulher alta, com um terno preto se destacava. Imaginou se aquele terno
combinava com o lenço rosa. Imaginou se aquele cabelo ruivo e batom vermelho
pertenciam a dona do lenço. Imaginou-a dançando valsa, soltando os cabelos
vermelhos acastanhados perfeitamente presos em um coque em um movimento de
cabeça, imaginou-a trocando o terno pelo vestido de gala e se aproximou para
beijá-la. Acordou novamente de súbito ao ser interrogado, sempre no momento do
beijo, o beijo inalcançável.
No
caminho da volta uma estudante universitária sentou-se ao seu lado, ele podia
ouvir a música saindo dos fones e imaginou se o lenço pertencia àquele pescoço
fino, coberto pelos cabelos loiros perfeitamente alisados na manhã daquele dia,
a batida do fone tomou conta de sua imaginação, e aquela jovem adulta estava
vestida com um vestido brilhante, com uma taça na mão, dançando empolgada com
uma batida eletrônica de um DJ qualquer em uma sala escura, pegou em sua mão e
se aproximou para beijá-la, agora conseguiria, ela escapava, provocando-o,
chegava mais perto e ela virava o rosto para ser beijada na face e quando
finalmente cedeu o ônibus deu uma brusca freada, a universitária já não estava
ali e o ônibus estava praticamente vazio.
Sonhou
novamente com mais uma das inúmeras possibilidades da dona daquele lenço, uma
mulata com o cabelo perfeitamente cacheado sambava em um salão de pisos de
madeira, um grupo com caixas, bumbos, cuícas e pandeiros ritmavam seus passos
enquanto ela os guiava perfeitamente, seu sorriso era o mais encantador que ele
já vira, um lindo contraste do branco de seus dentes com o negro de sua pele, e
ele se apaixonou novamente, se aproximou, fez uma reverência e beijou-lhe a
mão. Ela retribuiu o gesto e chamou-o para dançar, eram o casal perfeito de
Mestre Sala e Porta-Bandeira, a cada rodopio o cenário mudava novamente para o
salão de valsa, os estandartes da escola de samba foram substituídos por
estandartes de reis e uma coroa substituía seu chapéu de palha, aquela era sua
noiva, e ele poderia finalmente beijá-la, se aproximou, conseguiu sentir o
calor do hálito de sua rainha bem próximo e novamente acordou.
Saia do
apartamento aquela manhã, esperando mais um dia monótono de trabalho, ficar 1
hora no ônibus e 8 horas em um cubículo fedido, fantasiando na mulher perfeita,
ela ainda não tinha face, mas usava um lenço rosa no pescoço.
O
ônibus estava mais cheio nessa manhã, mas o lugar que sentara no dia anterior
estava vago, uma jovem de roupa esportiva ocupava o assento ao lado, e
novamente cochilou no caminho do trabalho. Sonhava com uma festa de
aniversário, ele estava ouvindo a conversa da irmã do anfitrião com uma amiga
sobre a festa da semana anterior. Tomou um gole da cerveja long-neck que estava
esquentando em sua mão e se virou para ver a sala de seu amigo de infância,
quando avistou uma morena, com uma pele extremamente branca se servir de outra
taça de vinho. Um vestido rosa tomara-que-caia valorizava as curvas daquela
bela mulher, usava óculos e os cabelos curtos emolduravam seu rosto
perfeitamente, o batom rosa-choque destacava os lábios perfeitamente desenhados
do novo objeto de suas fantasias. Aproximou-se, quase correndo, tomou-a em seus
braços e a inclinou como se dançassem e aproximou-se para um beijo. Sentiu seu
perfume, idêntico ao do lenço, viu seus olhos verdes se fecharem antecipando o
beijo e, novamente, acordou 10 minutos antes de seu ponto.
A
rotina se repetia, esgotando todas as possibilidades de mulher perfeita, e tudo
o que fazia no dia era pensar na dona do lenço. O perfume ainda estava lá, bem
fraco, mas presente. A marca do batom estava desgastado de tanto passar os
dedos imaginando os lábios que beijaram aquele lenço. Mais uma fantasia cruzou
sua cabeça, uma princesa em perigo em um castelo alto, uma guerreira lutando
lado a lado, e uma atriz que sabia todas as falas de Marlon Brando em “O
Poderoso Chefão”, todas variavam em cor, altura, e manequim, mas todas eram
perfeitas para ele, pois eram a dona do lenço.
A
reunião de sexta passou, e o memorando sobre a reunião de sexta só vai voltar a
ser emitido na segunda. Ele precisava tirar a dona do lenço da cabeça, um
colega de trabalho o chamou para o Happy Hour, “Minha namorada vai com uma amiga”,
ele disse, “Eu acho que vocês vão se dar bem”. Odiava esse tipo de coisa, mas
aceitou, não sabia bem o porquê, mas sabia que queria beber uma cerveja.
Chegaram
ao bar, sentaram em uma mesa e conversaram sobre a reunião e sobre o projeto,
estava entediado, querendo ir para casa. Achava que aquilo não teria sido uma
boa ideia. A namorada de seu amigo chegou com a amiga, mas ele nem a notou de
início, ao nota-la percebeu o rabo-de-cavalo bem-feito, deixando alguns fios de
cabelo avermelhados soltos e um batom rosa claro, seus olhos castanhos eram penetrantes
e ele achava que ele a conhecia de algum lugar. Ela tomou o lugar ao seu lado e
ele não conseguia desviar o olhar. Por algumas horas ele esqueceu a dona do
lenço, conversou com uma mulher de verdade e começava a gostar de conversar com
aquela mulher, não imaginou-a usando o lenço, não imaginou-a dançando valsa em
um salão rodeado de reis e não pensou nela como Porta-Bandeiras, ela estava
ali, e seu cheiro parecia tão familiar quanto o cheiro de bolo que sua mãe
fazia quando era criança.
Pagou a
conta e a acompanhou até o taxi, o amigo e a namorada já tinham saído, e os
deixaram sozinhos, tempo o suficiente para se conhecerem. Abriu a porta do
carro, abraçou-a e perguntou
- Nos encontraremos
novamente?
-
Claro, aqui, deixe eu anotar meu telefone.
Retirou
o lenço rosa do pescoço, pegou uma caneta na bolsa e anotou o telefone,
assinando com um beijo. O lenço estivera ali a noite inteira? Como não
percebera? Ela entregou-lhe o lenço e entrou no carro. Ele fechou a porta e ela
abaixou o vidro, ele se aproximou e sentiu novamente o cheiro familiar do
perfume, retirou o lenço antigo do bolso e a entregou.
- Acho
que você perdeu isso...
Ela sorriu
quando viu que ele carregava o lenço, puxou-lhe a gravata até que seus lábios
estavam próximos aos ouvidos dele e sussurrou.
- Achei
que nunca mais ia te ver.
Ela o
soltou e ele recuou o suficiente para ver os olhos dela brilharem. Se aproximou
um pouco mais, ela fechou os olhos de antecipação, ele a acompanhou, sentiu o
lábio inferior tremer e a boca ficar seca. O momento tinha chego. Ele
encontrara a dona do lenço. Encostou os lábios no dela só o suficiente para
sentir o gosto de cereja do chiclete que ela mascava, se afastou com rispidez a
assustando.
- Algum
problema?
- Não. –
respondeu com os olhos mareados. – é que sonhei com esse momento a minha vida
inteira. O primeiro beijo com minha futura esposa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário