O blackout projetava pontos luminosos na parede do meu quarto, me lembrando as estrelas que tinha no teto do meu quarto durante minha infância, eu poderia jurar que ainda estava escuro do lado de fora, não queria olhar o relógio barulhento que estava ao lado do meu travesseiro. O barulho dos carros do lado de fora da minha janela me avisavam que não era tão cedo quanto gostaria que fosse.
Passei a noite em claro novamente, meus olhos estavam pesados e a cada piscada colavam por um segundo, antes de reabrirem em um esforço hercúleo. Minhas projeções mentais estavam cada vez mais vívidas, dando uma impressão nítida de ilusões. Os fantasmas que habitavam minha mente me assombravam pessoalmente. A cada passo que eu dava em direção a cozinha, via um espírito me assombrando, a cada olhar para o espelho me reconhecia menos. Minha barba engrenhada estava ainda mais espeça, meus cabelos estavam se alongando em um mullet, e minhas unhas estavam grandes e rachadas. Eu me reconhecia como mais um fantasma ilusório.
A geladeira estava vazia, exceto por dois tomates podres e uma garrafa d'água vazia, o congelador estava com uma camada espeça de gelo, suguei aquele gelo de gás carbônico com meus lábios, a queimadura causada por ele ardeu mais em minha alma do que em minha boca. Eu era mais um cadáver perambulando pelo cemitério do mundo. Minha forma cadavérica poderia ser confundida com a de um zumbi de Romero, e eu torcia para que um matador de zumbis invadisse minha porta para pôr fim a meu sofrimento.
Arrastei meus pés de volta para cama, o blackout já não projetava as luzes na parede. Quanto tempo perambulei sem sentido em meu apartamento de 50 metros quadrados? Será que dormi em pé novamente? Por que ainda me sentia tão cansado? Olhei uma foto antiga minha e não me reconheci, joguei o porta-retratos na parede com a frustração nítida de quem envelhecera, empurrei meu travesseiro para a borda da cama e deitei-me encarando o teto.
Os faróis dos carros projetavam uma linha luminosa cada vez que passavam, depois do 20º parei de contar e fiquei apreciando as formas que os fantasmas tomavam iluminados por esse novo fator. Minha perna começou a formigar, primeiro os dedos, depois o pé, subindo lentamente até o joelho como se um formigueiro estivesse sendo construído sobre meu corpo. Chegaram ao meu peito e senti minha respiração falhar, ao chegar no pescoço já estava prendendo a respiração, minha língua tornou-se azeda como leite podre e, ao chegar nos meus olhos me vi de cima. imóvel, com o peito parado, o coração ainda palpitava, fraco, mas ainda batia. Que ironia, nunca acreditei em alma e, ainda assim, eu estava me vendo. Ainda sentia meu coração bater no ritmo do relógio barulhento ao lado do travesseiro, a cada segundo uma batida, depois a cada três segundos, uma batida, até que não havia mais batidas.
Morri no meu apartamento do mesmo jeito que vivi. Sozinho e recluso. Morri no escuro, esperando o herói que iria por fim ao meu sofrimento. O herói era Hades, que me abraçava com seus braços e seu odor pútrido me levando para o tártaro.
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