sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Ira



O sangue pingava dos nós dos dedos, cerrados em um punho violento, a mão direita estava toda cortada e a esquerda apoiava o peso do tronco na pia do banheiro. O espelho recém quebrado refletia 7 imagens diferentes  do mesmo rosto. A marca do punho estava centralizada nas rachaduras, apresentando vários cacos de vidro que refletiam pequenos feixes de luz.

Não reparou na dor, na angústia ou no sangue que pingava em seus sapatos caros. Estava com raiva, precisava estragar algo belo. O espelho, dentro da moldura dourada, era o alvo perfeito para aquele momento. Não derramou uma lágrima. Não esboçou uma cara de dor. E mesmo assim estava exausto. A respiração ofegante contrastando com seu terno e seguia o mesmo ritmo do suor que pingava de sua testa. Um soco. Tudo que foi necessário fora um soco.

Olhou para a mão ensanguentada e o sapato já manchado de sangue, lavou a mão e arrumou a gravata, mas as marcas do vidro estavam bem visíveis, não havia como disfarçar o que havia acontecido, ainda não sentia a dor na mão e nem iria sentir, pegou o anel de noivado no bolso, olhou para ele e ficou com raiva mais uma vez, deixou a caixa em cima da pia do banheiro do restaurante e saiu. Ela já não estava mais na mesa, nem em sua vida. Pegou o carro e foi para casa. Deitou-se ainda com o terno e dormiu. Não sentia mais sua mão sangrar, não sentia mais o anel em seu bolso, só sentia o vazio do abandono e se entregou a Morpheus, não querendo sentir mais nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário